Estudo publicado na mais recente edição da revista científica New England Journal of Medicine/NEJM (veja íntegra) relatando os casos de três bebês que receberam transplantes cardíacos, reabre uma (antiga) discussão neste campo: quando e como alguém pode ser declarado como morto?
Nas últimas décadas, em geral, as remoções de órgãos acontecem apenas após constatação médica de interrupção total das funções cerebrais. No caso dos três recém-nascidos de Denver, todos se encontravam em suporte artificial de vida e demonstravam pequena função cerebral – porém não atendiam ao critério de morte cerebral.
Com o consentimento dos respectivos pais, as crianças foram retiradas dos aparelhos de ventilação e seus corações foram extraídos, por cirurgiões cardíacos, poucos minutos depois de pararem. Os órgãos foram transplantados, com sucesso, em outras crianças com deficiências cardíacas gravíssimas, que dependiam do procedimento. Todos os receptores sobreviveram.
“Desejos não-satisfeitos”
Conhecido como “doação depois de morte cardíaca” o procedimento vem sendo encorajado pelo governo dos EUA e por bancos de órgãos, como forma de aumentar a oferta disponível de órgãos para transplantes.
Prova de que o método, aos poucos, ganha apoio é que, segundo o United Network for Organ Sharing, em 2007, 793 transplantes foram realizados com órgãos de doadores com morte cardíaca.
Os casos de Denver ganharam vulto por serem alvo de estudo e – óbvio – por envolverem pacientes pediátricos. A rapidez para a retirada dos órgãos (bem menor do que os cinco minutos virtualmente sugeridos, já que, em um dos casos, a espera da equipe cirúrgica foi de 75 segundos) também chamou a atenção.
Na opinião do médico Mark Boucek, do Children’s Hospital, em Denver, e líder do estudo, “parecia haver duas situações e um desejo não-satisfeito. Receptores estavam morrendo, enquanto esperavam órgãos. E tínhamos crianças morrendo, cujos familiares queriam doar seus órgãos”.
Quem discorda veementemente da atitude dos médicos de Denver é o também médico e bioeticista Arthur Caplan, do Centro de Bioética da Universidade da Pensilvânia. “Ter uma equipe local de transplantadores tomando quase que sozinha suas decisões e, ainda, submetida à pressão de conseguir corações para salvar crianças morrendo nas listas de espera de sua própria instituição, não é um jeito objetivo de se estabelecer um critério”, disse o professor em sua coluna do site MSNBC.com
Para ele, a nova “regra” pode afugentar as famílias de futuros doadores. “As pessoas já estão suficientemente preocupadas em relação a doações de órgãos. Não é preciso, agora, fazê-las refletir se elas ou seus filhos serão assassinados ou terão suas mortes aceleradas, com vistas a se tornarem doadores”.
Os transplantes relatados na NEJM aconteceram nos últimos três anos: dois em 2004 e um, no ano passado. Os três pequenos doadores haviam sofrido prejuízos cerebrais durante o nascimento, por falta de oxigenação necessária.
Fontes: NSNBC.com e Bioethics.net
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