VIII Cobirp aborda efeitos da violência em meio a profissionais e comunidade

POR CENTRO DE BIOÉTICA

Foi um sucesso em temas, palestrantes e participação do público o VIII Congresso de Bioética de Ribeirão Preto (VIII Cobirp), evento já tradicional naquela região, realizado entre os dias 20 e 22 de outubro. Durante os três dias do evento, encabeçado pela Câmara Técnica Interdisciplinar de Bioética do Cremesp, abordaram-se “violências” de vários âmbitos, como a doméstica – contra a mulher, crianças e, mesmo, contra pais e avós; por gênero, perpetrada em direção a minorias, como transexuais; no meio universitário e a que embute distúrbios mentais.

A abertura do Congresso contou com a participação de autoridades como José Humberto Belmiro Chaves, conselheiro do Conselho Federal de Medicina (CFM) e membro da Câmara Técnica de Bioética daquela entidade – que proferiu a conferência de abertura do encontro, A Violência na Perspectiva da Bioética; Lavínio Nilton Camarim – vice-presidente do Cremesp; Reinaldo Ayer de Oliveira, coordenador do Centro de Bioética do Cremesp; Eduardo Luiz Bin, também conselheiros do Cremesp, além de Isac Jorge, delegado do Cremesp da região, e José Marques Filho, coordenador da Câmara Técnica de Bioética da Casa.

 

 

Violência: definição

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a violência como o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação.

Ao apresentar José Humberto Belmiro Chaves, José Marques Filho lembrou que, ao setorizar o evento em um só tema, a Câmara Técnica de Bioética do Cremesp pretendeu “demonstrar sua indignação contra todas as modalidades de violência”.

Seguindo tal mote, o conselheiro do CFM, em sua fala, traçou um panorama histórico desde os tempos em que os ancestrais longínquos do homem usavam ossos de dinossauros como arma de defesa; passando pelo Iluminismo, quando o termo “violência” foi reconhecido pela primeira vez; até os dias atuais, quando “todo mundo se comove, mas ninguém se move” para acabar com o problema, lamentou.

“Temos urgência nesse debate (...). Precisamos fugir da ‘política do provisório’, rumo a uma sociedade segura e em paz. Fugir de discursos bioéticos tímidos” conclamou.

Ao final da solenidade de abertura, os presentes se emocionaram com apresentação de slides de Isac Jorge Filho, organizador do Cobirp desde sua 1ª edição, dez anos atrás, e presidente do Cremesp na gestão 2005-2006. “Ao contrário de especialidades médicas, eventos direcionados à Bioética não rendem recursos e não atraem tanta gente. Por isso, é necessária muita persistência e insistência”, disse Isac, homenageado como patrono da I Liga de Ética e Bioética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP).

Violência doméstica e violência de gênero

Os médicos Thiago Dornela e Renata Abduch, participantes do Serviço de Atenção à Violência Doméstica e Agressão Sexual (SEAVIDAS) do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, relataram detalhes de sua experiência com vitimas de diversas faixas etárias, na mesa redonda Violência Doméstica, que incluiu ainda o pediatra Mário Hirschheimer, delegado do Cremesp – trazendo números da violência contra a criança –, além de Concília Ortona, jornalista do Centro de Bioética do Cremesp, abordando um tema desconhecido, mas impactante: Filhos que batem nos pais.

Conforme os dados levantados, estima-se que 14% dos genitores já foram agredidos por seus filhos – número acentuado, se incluídos netos contra avós. Estudos realizados no Reino Unido e Canadá, entre outros países, além de dados disponíveis no Brasil, confirmam que esta é “a forma mais escondida, incompreendida e estigmatizada de violência familiar”.

Já a mesa Violência e Orientação Sexual e de Gênero, focalizou, entre outros pontos, o uso do “nome social” no atendimento em saúde e no exercício profissional. “Desde 2009, quem vai a um serviço de saúde tem o direito de ser chamado pelo nome social. Por que isso não é divulgado? questionou Marco Aurélio Guimarães, da FMRP-USP.

Logo no início de sua palestra, a estudante de medicina Alice Quadros lastimou o fato de o Brasil liderar o – triste – ranking de país que mais mata tal contingente, em todo o mundo. Em um momento de desabafo, Alice, que é transexual, afirmou: “não penso, acho ou sinto que sou mulher. Eu sou mulher. ‘Alice’ não é apelido ou nome fantasia. É o que me representa”.

Tal bloco foi fechado com palestra Bioética e o Atendimento a Vitima de Violência Sexual, proferida pelo professor Hermes Barbosa, da FMRP-USP. “A vítima de estupro é reexposta a um mesmo sofrimento, quando, ao denunciar, é questionada várias vezes, por várias pessoas, sobre a mesma história”, indicou.

Violências: trote e distúrbios mentais

Originalmente, o termo “trote” pode estar vinculado a práticas presentes em fazendas, quando os animais devem aprender determinados tipos de truques – ainda que sejam empregados “recursos” como bater e surrar.

Com esse raciocínio, Isac Jorge Filho abriu sua palestra Violência no Meio Universitário: do Trote a Outras Agressões, no VIII Cobirp.

Tendo escrito vários textos a respeito do tema, Jorge mencionou várias situações de abusos, que tiveram como – triste – símbolo a morte do calouro de medicina da USP-SP Edison Tsung Chi Hsueh, em 1999. “Além do trote, no meio acadêmico existem violências ocultas de professores a alunos, que são perseguidos por discordarem de atitudes dos seus mestres”.


O ponto de vista dos próprios estudantes foi trazido à tona em mesa sobre as percepções de violência nos centros acadêmicos, que contou com representantes das universidades Barão de Mauá, USP e Estácio de Sá, todas em Ribeirão.

Outra mesa do Cobirp correspondeu ao tema Violência e Distúrbios Mentais, coordenada por Ibiracy de Barros Camargo, delegado do Conselho, e da qual participou Mauro Aranha, presidente do Cremesp – falando sobre as Perspectivas dos Psiquiatras. Também se manifestaram representantes da Psicologia e da Enfermagem.

Em sua fala, Aranha elencou alguns tipos de violência expressados nas várias visões de psicopatologias. De acordo com ele, as perversões em psiquiatria aparecem sob a forma de psicopatias: em relação à neurose, em geral, a agressividade pode não se exteriorizar, culminando em violência contra outras pessoas.

Quanto à psicose, há um tipo de “fratura” do sentido de realidade, capaz de levar a delírios persecutórios, que podem levar a ataque aos demais.

Conforme explicou, a agressividade humana é uma expressão afetiva absolutamente normal que, quando exacerbada, pode levar à violência. “Quando a agressividade é percebida, as tentativas devem voltar-se a trabalha-la de maneira construtiva, de forma a sublimá-la”.

De qualquer jeito, para Aranha, “não há como se combater as agressões ou violências na sociedade se não se partir para uma mudança sistêmica da própria sociedade”. Explicou ainda: “nesta gestão, estamos fazendo nossa parte, na tarefa de propor a humanização em medicina, tendo em mente o escopo ambicioso de expandir o tema a toda a coletividade”.

Violência profissional e institucional

O VIII Cobirp contou ainda com a mesa Violência: Profissionais da Saúde e Pacientes, mediada pelo Delegado do Cremesp Ângelo Sarti, e da qual participaram Edson Umeda, membro da Câmara Técnica Interdisciplinar da Casa, e Fabíola Mattozinho, presidente do Conselho Regional de Enfermagem (Coren); e Violência Institucional, com assuntos que foram de Bullying e Assédio Moral na área da Saúde ao Desafio da Construção das Relações Éticas de Profissionais da Saúde.

Umeda trouxe dados interessantes de pesquisa encomendada pelo Cremesp ao instituto Datafolha, na qual se constatou que, só no Estado de São Paulo, 47% dos médicos conhecem um colega que viveu algum episódio de violência por parte de pacientes. Outros 17% foram vítimas e tiveram conhecimento colegas que viveram essa situação, sendo que 5% deles sofreram agressão pessoalmente. 

Liga de Bioética

Dentro do mesmo evento foi inaugurada a Liga de Ética Médica e Bioética da FMRP, cujos mentores são os docentes Hermes de Freitas Barbosa e Marco Aurélio Guimarães (membro da Câmara Técnica Interdisciplinar de Bioética, e organizador do VIII Cobirp) e o patrono, Isac Jorge Filho, delegado do Cremesp e idealizador do Cobirp.

Na solenidade, o presidente da Liga, estudante Gabriel Sgarbosa lembrou que parte de seus colegas considera o exercício da “ética” sinônimo de “bom-senso” – algo até infantil. “Não é algo intrínseco, senão, não precisaríamos discutir o assunto”, defendeu. “A máxima ‘faça ao outro o que gostaria que fizessem a você’ também não define a ética, pois há situações em que o paciente, no exercício de sua autonomia, quer algo completamente diferente do que nós pretenderíamos” completou o professor Hermes Barbosa.

Em sua primeira atividade, a Liga realizou o I Simpósio de Temas Polêmicos, com os temas Discriminação na Relação Médico Paciente e Publicidade Médica x Marketing Médico, do qual participaram, entre outros, Reinaldo Ayer de Oliveira, coordenador do Centro de Bioética do Cremesp, e Lavínio Camarim, vice-presidente do Cremesp.

Na sua partição, Ayer que explicou à plateia (em sua maioria, alunos de Medicina), o que pode ou não ser alegado como “objeção de consciência”, por parte dos médicos. Perante um caso hipotético, defendeu. “É absolutamente antiético deixar de atender alguém em virtude de cor, gênero, ou posição política”.

Lavínio Camarim, vice-presidente da Casa, foi mais abrangente, ao lembrar aos futuros médicos sobre a tarefa “espinhosa” à qual estão abraçando. “A partir do instante que uma liga é criada, merecerá um bom encaminhamento”.

 

Algumas frases

- A maior violência em potencial está em nós mesmos

- O medo priva. Toda a sociedade baseada no medo é violenta

José Humberto Belmiro Chaves, CFM

 

- Fundamos a primeira liga de estudantes de Medicina do interior, voltada à doença de Chagas. Saíamos de jeep doado, com cartazes, levando o espírito da Bioética às casas das pessoas

- Trote é um rito de passagem no qual o ‘cidadão comum’ passa a ser um ‘cidadão especial’. Tenho dúvidas se o cidadão universitário é mesmo especial

Isac Jorge Filho, Cremesp

 

- Sexo biológico se traduz em gênero. Gênero é construído socialmente

- Aceitar meu nome social é respeitar minha humanidade

Alice Quadros, aluna da FMUSP

 

- Definições costumam ser cruéis

Marco Aurélio Guimarães, docente da FMRP e membro da Câmara de Bioética do Cremesp

 

- À medida que temos uma sociedade doente, criamos homens doentes

- De que adianta invadir a Cracolândia sem propor aparatos suficientes para tirar as pessoas de lá?”

Mauro Aranha, presidente do Cremesp.


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