16-09-2015

“As desigualdades não estão mais restritas às nações pobres” - CBB 2015

Regina Parizi, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética.

Durante o XI Congresso Brasileiro de Bioética, em Curitiba, a presidente do evento Regina Ribeiro Parizi Carvalho – na ocasião, reconduzida à presidência da Sociedade Brasileira de Bioética, SBB – dividiu-se em várias tarefas, entre participar de minicursos, mesas-redondas e conferências em torno de um único tema, as Desigualdades; coordenar as cerimônias de abertura e encerramento; e receber convidados internacionais e nacionais (entre eles, o então ministro da Educação, Renato Janine). 

Ainda assim, Regina – que milita na Bioética desde as primeiras (e tímidas) discussões sobre o tema no Brasil, no início da década de 90, quando presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp, de 1993 a 1995 e, depois, entre 2000 e 2003), – parou por alguns minutos para conceder entrevista exclusiva ao site do Centro de Bioética do Cremesp. 

Simpática, contou como a diretoria da SBB lidou com um mote tão delicado, em um congresso que ocorreu em plena crise econômica e ética, em nível global. Falou ainda sobre as dificuldades em organizar um evento tão bem-amarrado nesta época complicada. 

Confira, a seguir, integra da conversa: 

Por Concília Ortona 

Centro de Bioética – O XI Congresso foi restrito ao tema“Bioética e Desigualdades”. Ao final, a ideia demonstrou-se adequada, em época de tantas desigualdades globais? 

Regina Parizi: Foi bastante feliz, mesmo porque, até pouco tempo, as desigualdades eram abordadas em discurso exclusivo dos países terceiro-mundistas, nações pobres e/ou atrasadas, enfim,restrito à América Latina, África e Índia, entre outras. 

Ao contrário, vemos agora um processo interessante: vários membros da International Association for Education in Ethics (IAEE), entidade internacionalcujos sócios são principalmente norte-americanos e europeus, deixaram claro que as desigualdades ocorrem em nível transversal, ou seja, éfenômeno mundial: estão presentes nos EUA; Canadá e Inglaterra, entre outros países tidos como “ricos”. 

Exemplo: em uma fala sobre conflitos no campo da saúde nossistemas público e privado, eutrouxe trabalho mostrando que em vários condadosamericanos, as filhas estão morrendo com a faixa etária inferior às de suas mães. Se forem feitos recortes quanto à raça e gênero, a situação fica pior: filhas de mulheres negras morrem bem antes do que as das brancas. 

Na Inglaterra, reduções no orçamento da saúde afetaram os programas destinados a idosos (Policy to Older People e UK Advisory Forum on Ageing, entre outros), tradicionais e com muitos resultados positivos. Enfim, o resultado foi à diminuição das visitas de assistentes sociais, elevando as taxas de mortalidade entre os assistidos. 

Enfim, hoje não é tão clara a fronteira geográfica das desigualdades: chegamos a um ponto em que as discussões não partem de “países ricos” e “países pobres”. Aquelas de origem econômica refletem em vários outros setores vinculados ao acesso à saúde; Educação; Turismo, Cultura, às condições de vida nas cidades etc.,e culminam em uma grande concentração de renda nas mãos de pouco milionárias, e na queda de condições de vida da maioria. 

A OXFAM, ONG da universidade de Oxford que acompanha a desigualdade econômica do mundo (para encontrar formas práticas e inovadoras para as pessoas a saírem da pobreza e prosperar, veja em https://www.oxfam.org/)divulgou, no ano passado, que, no mundo havia 80 “super-ricos”, manipulando basicamente o dinheiro do mundo inteiro. 

Cbio – As Desigualdades chegam a tal ponto que o professor norueguês Jan Solbakk, afirmou (veja em breve entrevista exclusiva) que mulheres são discriminadas aténo país dele!

Regina – Em levantamento recente sobre gênero identifiquei que,da 2ª guerra para cá, indubitavelmente, a condição feminina avançou em termos de escolaridade – principalmente daquelas de pele branca, que, inclusive, contam com mais anos de estudos do que os homens. Tomemos como exemplo a própria Noruega: amaior parte das mulheres estudam mais do que os homens,inclusive,em nível de pós-graduação. 

A surpresa é que há 15 anos que as europeias não conseguem diminuir a diferença salarial: melhoraram, ganham mais conforme sua formação, mas “empacaram” em termos de equiparação salarial ao sexo masculino, apesar de terem melhor currículo. 

Cbio – O que torna o senso de justiça mais desequilibrado ainda. 

Regina – Sim: trata-se de uma população elitizada do ponto de vista educacional, que dá melhores cargos às mulheres – pois estas contam com mais tempo de formação –mas que, ainda assim, não conseguiu equiparar salários. 

Mulheres ganhando menos que os homens, ocupando os mesmos lugares, ou até melhores. Por que razão isso aconteceria, se não por preconceito e discriminação? 

Tais situações são importantes de serem discutidas no âmbito da Bioética: por um lado, são promovidas reflexões profundas sobre Desigualdades nos aspectosfilosófico, epistemológico,conceitual. Por outro,é possível“descer”ao cotidiano, com o propósito de sensibilizar e instrumentalizar pessoas a combaterem desigualdades em seu dia-a-dia. 

Cbio – A senhora foi reconduzida à presidência da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB).  Quais foram os desafios da última gestão, e quais serão os próximos?

Regina – Já tive a experiência de serreconduzida em outras entidades. Mas em relação à SBB foi algo especial, no sentido de levar em frente um projeto inacabado: a gestão dura apenas dois anos, e, em conversa com os associados, concluímos que o processo de reestruturação, de atualização nas mídias, precisava continuar. Não que outras diretorias não tivessem tido essa preocupação, só que, como a nossa, enfrentaram grandes dificuldades financeiras, dado que as mudanças não são baratas. 

Discutiu-se, portanto, a necessidade de fortalecimento financeiro e sustentabilidade da entidade: uma questão complica a outra. Se não há boa tecnologia da informação, não se chega ao associado. Na verdade, a SBB tem dois públicos bem distintos, os antigos sócios, que gostam de receber material convencional e boletos para pagamento da anuidade, via correio. Do outro lado há um enorme contingente que anseia falar através de mídias, facebook e que sequer lê revista papel. É preciso então trabalhar com estratégias diferentes, para atingir um consenso com as regionais sobre como reestruturar. 

Mas o mais preocupante é que, desde 2013, tínhamos um congresso aprovado em plenária, que aconteceria no Nordeste, porém, não se concretizou. Seria um evento com características internacionais, uma vez devia abrigar a III Conferência para Educação em Ética,o que, obviamente,mudaria seu escopo, exigindo mais recursos materiais e humanos, além de programas bilíngues: o objetivo era receber também trabalhos do exterior, o que significava conseguir uma equipe de professores que dominasse outras línguas, capacitados para analisar, avaliar, apresentar e coordenar a apresentação dos trabalhos. 

Houve problema com tal organização, o que levou ao cancelamento do evento previsto.Felizmente, logo depois recebemos uma proposta generosa da PUC de Curitiba, que cedeuo espaço em seu Centro de Convenções sem cobrar aluguel. No final, isso acabou sendo um diferencial do Congresso, pois aconteceu em uma Universidade, lugar cheio de vida e interação com os alunos no campus. 

Cbio – A realização do Congresso foi o maior desafio? A participação do Ministro da Educação foi também algo difícil de conseguir? 

Regina – Curiosamente Renato Janine (*)foi convidado antes de se tornar ministro e cumpriu o compromisso, participando mais como o professor de filosofia que é, do que como representante do governo.

N. da R. O ministro Janine foi substituído no cargo por Aloizio Mercadante, poucos dias depois do Congresso. 

Mas, sem dúvidas, a realização do Congresso foi nosso grande desafio. Parecia impossível promover um evento internacional em praticamente quatro meses. 

A generosidade foi além do espaço físico: tivemos o apoio engajado de uma equipe de professores e alunos de pós-graduação,não só da área de Bioética, mas de várias áreas da ciência e da saúde, da biologia, da filosofia. 

Cbio – Qual foi a intenção ao agregar crianças no programa do XI Congresso de Bioética? 

Regina –A SBB já vinha propondo há anos que a Bioética saísse dos muros da academia, deixando de se restringir à pós-graduação. Foi dado um start em Curitiba, com a inclusão no programa do concurso Jovem Bioeticista, com premiação a crianças entre 10 a 12 anos que escrevessem a respeito dos dez anos da Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos, da UNESCO – o que foi um sucesso. 

Outra atividadena mesma linha foi o encontro Caminho do Diálogo, com a participação de pré-adolescentes de 9 a 14 anos do Ensino Fundamental da rede pública e privada da cidade, que reviveu o processo “Peripatético”de ensino-aprendizagem, adotado pelo filósofo grego Aristóteles, em Atenas, onde os estudantes ouviam mestres, expunham suas ideias e tiravam dúvidas sob as árvores. Em Curitiba, isso aconteceu nos jardins do campus da PUC. 

Foi algo emocionante: participaram cerca de 250 estudantes, já que o encontro foi bem divulgado nas redes sociais, e vários monitores, como professores de Bioética, de Biologia, Direito e Antropologia. Tratou-se de ideia muito bonita do Gerson (Zafalon Martins, conselheiro do Conselho Federal de Medicina, também organizador geral do Congresso): os meninos e as escolas estavam muito motivados, e os professores entusiasmaram-se, e estão levando o projeto aos respectivos Estados.  

Cbio – O próximo Congresso já foi definido? 

Regina – O Congresso da SBB sempre acontece em setembro, e a assembleia decidiu que o próximo será em 2017, em Recife, Pernambuco. 

* Acesse a cobertura completa do XI Congresso Brasileiro de Bioética


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