O médico e a indústria


Conflito de interesse constitui-se em um conjunto de condições nas quais o julgamento de um profissional a respeito de um interesse primário tende a ser influenciado indevidamente por um interesse secundário, conforme conhecida definição do filósofo Dennis F. Thompson, PhD da Universidade de Harvard.

Pensando justamente em discutir eventuais conflitos presentes na relação entre os médicos e laboratórios – e se existem formas de convivência pacífica e ética entre esses dois atores –, o Cremesp promoveu, no dia 26 de novembro, o seminário A Relação entre os Médicos e as Empresas Farmacêuticas, de Equipamentos, Órteses e Próteses, evento programado desde que a entidade encerrou, em meados desse ano, a fase quantitativa de pesquisa cujo objetivo foi verificar a visão dos médicos paulistanos sobre esta – tão delicada – relação.

Pesquisa Cremesp: o embrião
Logo no início do Seminário, aberto pelo presidente do Cremesp, Luiz Alberto Bacheschi, foram trazidos pelo conselheiro Bráulio Luna Filho, coordenador deste projeto, resultados da pesquisa executada pelo Instituto Datafolha entre o final de 2009 e início de 2010. As respostas de cerca de 600 médicos de diversas especialidades destacam pontos interessantes (VER BOX), que incluem: a maioria acha que congressos não se realizariam sem a presença da indústria, mas metade dos entrevistados (51%) pensa que isso não deveria acontecer.

Em seguida falou o conselheiro Reinaldo Ayer de Oliveira, que apresentou dados preliminares da fase qualitativa do estudo, ainda em execução. Em geral, os voluntários consideram os laboratórios “bem agressivos” em sua abordagem. Há, ainda, outras afirmações contundentes. “Um gestor de hospital privado ressaltou que as instituições estão ganhando mais na realização de exames e na farmácia do que em hotelaria”, apontou Ayer.

Com mediação do conselheiro do Cremesp, José Marques Filho, a mesa Conflito de Interesses e Evidências Científicas teve, entre outros convidados, a jornalista da Folha de S. Paulo Cláudia Collucci, que lembrou que estes profissionais também passam por conflitos de interesses, ao serem bancados por empresas para, por vezes, viajar e cobrir congressos médicos.

Outra mesa redonda que também chamou a atenção foi a que discutiu a regulamentação existente no Brasil sobre propaganda de remédios, coordenada pela conselheira Ieda Terezinha Verreschi. Contou com a presença de Carlos Vital, 1° vice-presidente do CFM; Vera Valente, da Interfarma (entidade que congrega 35 laboratórios instalados no Brasil); e Dirceu Raposo, diretor-presidente da Anvisa, que opinou: “se eu acho que a propaganda influencia na prescrição? Claro, ela é feita para influenciar mesmo!”

Primeiros passos
O espírito do seminário talvez possa ser resumido pelas palavras do conselheiro Bráulio Luna Filho. “Uma jornada longa começa com os primeiros passos e, por isso, somos humildes em nossos objetivos para este encontro”. Conforme garantiu, o Conselho de São Paulo não pretende se isentar da discussão, alinhavando sugestões passíveis de, no futuro, se tornarem recomendações e diretrizes.

Ao final do encontro – que, como seria de se esperar, “esquentou” em algumas ocasiões, por agregar representantes dos dois pólos de debate, médicos e indústria – esboçaram-se algumas sugestões a discussões futuras, como solicitar um posicionamento firme em relação ao tema por parte do Ministério da Saúde; melhorar o honorário do médico, para que este não fique vulnerável ao assédio da indústria; expurgar a figura do “agente de vendas” (que faz propagandas de produtos) dos meios universitários; e impedir que “amostras grátis” sejam oferecidas depois de quatro anos da comercialização de medicamentos.

Alguns dados pesquisa (quantitativa) do Cremesp

  • 61% dos entrevistados concordam que a indústria tem muita influência sobre a educação, a terapêutica e a prescrição
  • 73% consideram que os congressos não se realizariam sem a presença da indústria, mas 51% preferem participar dos eventos sem tal patrocínio
  • 32% vêem com pessimismo a relação entre médico e indústria, ponderando que a mesma está fora de controle
  • A grande maioria, 91% dos entrevistados, acha que médicos que proferem palestras e escrevem artigos promovendo produto farmacêutico devem declarar os agentes patrocinadores financeiros
No free lunch

Há médicos que não se sentem nada confortáveis em contar com o apoio de laboratórios em educação continuada e outros eventos científicos. Em alguns momentos do seminário promovido pelo Cremesp se pôde ouvir de palestrantes a famosa frase There is no free lunch – em tradução livre do inglês para o português , “não existe almoço grátis”.

Ou seja, quem investe quer algo em contrapartida.

Falando sobre o assunto esteve o médico Guilherme Brauner Barcellos, do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Sul (SIMERS) e editor da campanha Alerta – Amostra Nunca é Grátis, voltada a apontar que, na maioria das vezes, os médicos são influenciados de maneira inconsciente pelas estratégias de marketing da indústria farmacêutica.

Para deixar claro que é possível promover conhecimento científico sem ter que recorrer à indústria, Barcellos e colegas realizaram, em novembro passado, o Congresso Pan-Americano de Medicina, sediado em Florianópolis, em SC. Contaram (apenas) com financiamento da Mayo Clínic (EUA), que patrocinou a vinda de palestrantes internacionais; com a venda de estandes a hospitais e editoras, além das taxas de inscrição.


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